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domingo, 12 de março de 2017

Seguem três bonitos poemas de Luana  e um de Fernando Pessoa que se enquadra nesta temática

Esquece a força para lutar

Esquece os dias de sol,
Esquece as notas, e a clave de sol.

Esquece tudo o que conheces,
Nada do que pensas que sabes, é verdade.
Não sei o que pareces...
Tenho muita saudade.

Extenuante, é a minha vida,
Cansada de viver, eu estou.
Tenho toda a lição de vida obtida,
Pessoa cheia de emoções e sou...

Esquece o amor,
Relembra a dor...

Passado... eu gostava de o reviver,
Nada de preocupações em crescer.

Com ninguém eu quero falar,
Com toda a gente me quero calar,
Sem força para lutar,
Nenhuma batalha eu sou capaz de travar...


Luana Nascimento. 7º A FEM


Sentimos a mesma dor 

Não quero acreditar que é verdade,
Estou longe de ti há tanto tempo...
É tão profunda a dor da saudade.

Quero mais!...
Não quero apenas falar ao telefone,
Quero ver as tuas feições, quero entender os teus sinais...
Lembras-te do último dia, aquele em cantámos pelo mesmo microfone...

Lembras-te daqueles dias de primavera,
Estávamos sentados no banco de jardim.
Éramos tão felizes naquela era.
Eu sei que continuas a gostar de mim...

Não quero acreditar que é verdade,
Estou longe de ti há tanto tempo...
É tão profunda a dor da saudade.

O destino é cruel...
Mas não vamos lutar,
Os dias dos rebuçados de mel...
No fim o amor vai triunfar.

Luana Nascimento. 7º A FEM


Mentira

Eu minto, tu mentes, ele mente,
Sobre algo, obviamente...

Eu minto, tu mentes, ele mente,
Sobre algo que se sente...

Eu minto, tu mentes, ele mente,
Só porque sim, por e simplesmente...

Mentir ou omitir a verdade,
Para experimentar, pela curiosidade...

Mentir para proteger,
As pessoas que querem crer...

Eu minto, tu mentes, ele mente,
Acontece, nem que se tente...

Uma grande mentira se conta,
Grandes consequências para uma confronta...

Eu minto, tu mente, ele mente....

Luana Nascimento. 7º A FEM


Cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada — 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016


Para fechar este período letivo e abrir o nosso coração para a quadra que se aproxima, aqui ficam uns poemas com ela relacionados em diferentes línguas...


Quando um Homem Quiser

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas'


a fava

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos...
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.

Vasco Graça Moura, in 'O Retrato de Francisca Matroco e Outros Poemas' 


Em Francês...

Ce Noël, n’ oubliez pas de donner

Avec le sourire et la gentillesse , cadeaux

Au fil du temps briser ou de porter

Mais la bonté et de l'amour , jamais.


Em Inglês...

The warmth and joy of Christmas brings us closer to each other.


Em Espanhol...


"La Navidad.....no es un acontecimiento, sino una parte de su hogar que uno lleva siempre en su corazón." (Freya Stark)


Natal

No Natal há magia,
Muita alegria,
Crianças a sonhar
E o Pai Natal a chegar.

Debaixo da árvore
Abrem-se os presentes
E as famílias reunidas
Estão todas contentes.

Prendas e prendinhas
Sacos e saquinhos
Tudo canta
Para aquecer os corações.

Neste Natal
Eu vou oferecer
O meu coração
A quem o merecer.

Joana Fã, Mariana Tremoceiro 9ºB FEM

Natal

O Natal não é nada mau
Especialmente pelo bacalhau
Sorrisos em todos os rostos
Todos os anos, neste dia postos.

A árvore vamos montar
As luzes vamos ligar
Juntos vamos cantar
E o Natal festejar.

Vicente e Filipe 9º B FEM

Natal

Natal
Época de alegria
Época de festejos
Tempo de magia.

Natal
Dia do menino nascer
Tocam os sinos
Luzes a acender.

No Natal
Une-se a família
Aparece no ar
A desejada fantasia.

José Mendes, José Freitas e Cristiano Vieira- 9ºB FEM

Natal

Natal é tempo de amor
Aconchego e muita luz
Momentos de alegria
Pois, comemoramos o nascimento de Jesus.

Filipa Carmo e Sara Conceição 9º B FEM

Natal

A árvore montar
O jantar preparar
A família acolher
Para em conjunto comer.

Como é Natal
Vamos todos festejar
As luzes a piscar
E os presentes trocar.

Inês e Rafael 9º B FEM

Natal

No Natal, lareira acesa
Bacalhau no forno
Peru na mesa.

A família junta-se
Trocam-se presentes
Laços e embrulhos cobrem o chão
Risos, comida e muita paixão.

Azevinho nas portas
Pinheiros reluzentes
Fazem-se tortas,
Miúdos riem e espalham alegria...

Maria Guerra e Mário Valeriano 9º B FEM

Natal

No início de dezembro
As prendas são compradas
Para na noite de Natal
Serem desembrulhadas

No dia de Natal
A família está reunida
Uns perto da árvore
Outros perto da comida.

Anita e Beatriz 9º B FEM








terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mais um bonito poema, muito convidativo à reflexão.
Um Pouco Mais de Nós
Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serás ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horário,
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.

E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

José Jorge Letria


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Poema para Galileu


Galileu foi julgado pela Inquisição, devido às novas ideias que defendia.
É a esse facto que o poema de António Gedeão alude. Poeta e cientista, era muito sensível a este tema. Dessa sensibilidade nasceu este magnífico poema.


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O dia 16 de outubro marca o dia da fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, em 1945.
Uma vez que ontem se comemorou mais um dia da alimentação e sendo a água um elemento fundamental para a nossa sobrevivência aqui fica um poema de António Gedeão.

Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

António Gedeão

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

António Gedeão - Poeta do mês de outubro

Como cientista e humanista António Gedeão criou poemas para nos falar da falta de sentido dos preconceitos.
Na sua linguagem de cientista prova-nos "no laboratório" que o racismo não tem qualquer sentido.
Do belo poema outros fizeram canções.

Aqui ficam as palavras escritas
(recolhidas em https://poemasdomundo.wordpress.com/2006/11/04/lagrima-de-preta/)
e cantadas por Adriano Correia de Oliveira,
num vídeo recolhido no youtube.

Aqui fica, sobretudo, um tema para refletir.

Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterlizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Madei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
António Gedeão (1906-1997)


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Bom dia,

Fazemos votos de um bom regresso a um novo ano letivo, e para que não falte poesia no vosso percurso académico e pessoal vamos criar novas rubricas tais como O poeta do mês e  Poemas que se escondem nas canções.
Para este mês escolhemos António Gedeão, pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho, licenciado em Ciências Físico-Químicas.
Nasceu em Lisboa, em 1906.Enquanto professor e com o seu nome verdadeiro, foi responsável pela publicação de vários livros de história da ciência, manuais escolares e trabalhos de divulgação científica. Alguns destes livros destinam-se a um público infantil e juvenil.
Fez tardiamente a sua estreia poética, em 1956, mas cedo revelou a preocupação com o destino do homem. Alguns dos seus poemas foram transformados em canções, e versos como “ Pedra Filosofal"passaram a ser ouvidos com frequência. 
Morreu em 1997, em Lisboa.
É frequente encontrar nos seus poemas a ligação entre a cultura literária e o conhecimento científico, sendo, muitas vezes, constatações e explicações de fenómenos científicos. 
Aqui fica o primeiro poema...

Todo o tempo é de poesia

Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia."

António Gedeão, in Movimento Perpétuo

terça-feira, 24 de maio de 2016


Uma vez que se aproxima mais um final de ano letivo, aqui ficam alguns poemas cuja temática é a despedida, é a nossa forma de dizer "Até breve"...

Não chore nas despedidas,pois elas constituem formalidades obrigatórias
para que se possa viver uma das mais singulares emoções da vida: O reencontro.
Richard Bach


Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Fernando Pessoa

    Despedida


Três modos de despedida

Tem o meu bem para mim:

- «Até logo»; «até à vista»:

Ou «adeus» – É sempre assim.

«Adeus», é lindo, mas triste;
«Adeus» … A Deus entregamos
Nossos destinos: partimos,
Mal sabendo se voltamos.

«Até logo», é já mais doce;
Tem distancia e ausência, é certo;
Mas não é nem ano e dia,
Nem tão-pouco algum deserto.

Vale mais «até à vista»,
Do que «até logo» ou «adeus»;
«À vista», lembra, voltando,
Meus olhos fitos nos teus.

Três modos de despedida
Tem, assim, o meu Amor;
Antes não tivesse tantos!
Nem um só… Fora melhor.

António Correia de Oliveira, in 'Antologia Poética

terça-feira, 8 de março de 2016

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

E de Amor nos fala Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói, e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente; 
É nunca contentar-se e contente; 
É um cuidar que ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" 

Apesar do Dia de S. Valentim já ter passado...é urgente o amor...sempre

É urgente o amor 
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente 
permanecer.
Eugénio de Andrade, in “Até Amanhã”

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Cientificamente provado

Hoje é Dia Nacional da Cultura Científica. Este dia foi instituído em homenagem ao Professor Rómulo de Carvalho, o principal responsável por chamar a atenção para a importância da divulgação de uma cultura científica ao grande público em Portugal.
Ele era Professor numa Escola Secundária.
Ele era também Poeta. Com o pseudónimo António Gedeão escreveu das mais belas páginas da poesia portuguesa contemporânea, num estilo simples, acessível a todos, sem no entanto abandonar a sua função de ensinar, de nos falar de coisas importantes.
Hoje vivemos tempos muito complicados, em que o medo por vezes se sobrepõe à razão.
Hoje é um dia excelente para recordarmos as palavras do Professor-Cientista-Poeta que nos mostra, à luz da ciência, que o racismo não tem razão de existir.


Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar. 

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente. 

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume: 
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

terça-feira, 3 de março de 2015

Primavera

Aproxima-se em passos suaves a estação das sensações, os sons encantam-nos, as cores fascinam-nos, os sabores conquistam-nos e o toque poético aveluda a nossa vida...
Aqui ficam duas belas composições poéticas para marcar estas transformações naturais.


Primavera

Namorou-se uma princesa
Dum pajem loiro e gentil;
Chama-se ela - Natureza,
Chama-se o pajem - Abril.

A Primavera opulenta,
Rica de cantos e cores,
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores.


(...)
Tudo ri e brilha e canta
Neste divino esplendor:
O orvalho, o néctar da planta
O aroma, a língua da flor.

Enroscam-se aos troncos nus
As verdes cobras da hera.
Radiosos vinhos de luz
Cintilam pela atmosfera.

Entre os loureiros das matas,
Que crescem para os heróis,
Dá o luar serenatas
Com bandas de rouxinóis.

É a terra um paraíso,
E o céu profundo lampeja
Com o inefável sorriso
Da noiva ao sair da igreja
.

Guerra Junqueiro(in Tesouro Poético para a Infância, antologia - org. Antero de Quental-1877)


Natureza morta

Natureza, amiga...

Por que te castigam?
Se tu nos proporcionas tanta alegrai!
Se nos enches de vida!
Por que te torturam?

Tu que é a mãe suprema
das plantas, dos animais...
Forneces-nos o papel onde escrevemos
Poesias, canções, histórias de encantar...
Como podem poluir o teu doce aroma, o teu fresco ar?

A missão tão importante
Por que fica esquecida?
O que é supérfluo, cultivam...
O que salva, perde a vida.

" Sejamos guardiões desta obra de arte"

Cláudia Duarte, nº 4, 9ºE
.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ó mar salgado, quanto do teu sal

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
 
Fernando Pessoa
Assinalou-se ontem a data da morte de Fernando Pessoa (1935)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Poesia Pedagógica

Hoje temos um poema da Professora Maria Helena Mateus, que nos deu a honra de ceder este texto para o nosso blogue, ainda antes da publicação.
Ora leiam e vejam lá se não é mesmo assim:

Poesia Pedagógica

Movimento que é pensado
Resulta de outra maneira
Raciocinas, elaboras,
Tens a fórmula mais certeira

Tu movimentas teu corpo
Numa dada direcção
Vais distraído, não pensas,
Sujeitas-te ao trambolhão...

Na Escrita, passa-se o mesmo:
Estás desatento, e então?!...
Como sofrem as palavras...
Trocas os bês pelos vês
As sílabas sofrem também,
Em vez de Ei, escreves Ai,
Pões acentos que não são,
Um novo Acordo Ortográfico,
Mas que grande confusão!

E na Leitura é igual,
Tenta ler com expressão,
Pronuncia, lê com calma,
Do texto, entendes o conteúdo,
Respira na Pontuação!

Ler em voz alta, faz bem,
A voz transmite Emoção!
Todos vão gostar de ouvir-te,
Imagina-te locutor
De Rádio ou televisão!

Estás nervoso, atormentado?!
Fecha os teus olhos...Relaxa...
Respira profundamente...
Sente o teu corpo pesado,
Desprende o que te apoquente!

Perdoa qualquer ofensa,
Ao Mundo que te rodeia,
Analisa-te e revê-te...
Tranquiliza a tua mente
Germina em ti a Harmonia,
Essa é a Boa semente.

Em qualquer área da Vida,
É útil esta Atitude:
Vendo os Outros como Irmãos,
Trabalhando a Compreensão
Expandimos a Humanitude.

Poesia baseada na Terapia Psicomotora
Janeiro de 2014

Maria Helena Mateus da Silva

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Cecília e os cavalinhos de Deli

Voa, Cecília, voa com as tuas asas de vento,
seguindo o rasto nocturno dos cavalinhos de Deli,
nesse galope que te leva até à fonte mais secreta
dos sonhos da infância, dos diamantes da memória.

Voa, Cecília, voa com esse vagar de menina,
tecendo a seda dos versos com o carinho
das palavras encantadas, com o rumor
dos sentimentos que a alma oculta em si.

Voa, Cecília, voa por essas Índias sonhadas
onde o mistério das cores se confunde
com o dos livros ainda por escrever
e leva contigo os cavalinhos de Deli,
irmãos dos poetas e dos encantadores de sombras
que se tornam cúmplices da luz
sempre que acordamos, sôfregos de som,
com um destino inteiro por cumprir,
assim como quem canta, assim como quem vive.

Poema de José Jorge Letria (poeta português) dedicado a Cecília Meireles (poetisa brasileira).

Este poema foi retirado de um livro de poesia que existe na nossa biblioteca. Chama-se Poemas e com Animais e está à espera que tu lá vás ler mais.

Podes também pesquisar sobre Deli para perceber porque esta cidade, sendo real, aparece como um lugar mágico.

Boas leituras!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ANO LETIVO 2014/2015

Um pequeno poema, escrito há já muitos anos, sobre ensinar e aprender, que é o que se faz na Escola.
Aqui fica, pois, desejando a todos (nós) um bom ano letivo 2014/2015.

Canário Assistente

Ao lado dos dois pianos
assiste à lição da menina.

É generoso com o velho
professor. E cantando
também ele ensina tudo o que sabe.


António Osório

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Aqui ficam dois belos poemas de dois autores portugueses, eternos nas suas palavras...

Todas as cartas de amor…
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Fernando Pessoa



Identidade


Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
 E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.
Universal e aberto, o meu instinto acode
 A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.
 Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
 Gasto as horas e os dias 
A endurecer a forma da emoção.


Miguel Torga