Primeiro levaram os judeus,
Mas não falei, por não ser judeu.
Depois, perseguiram os comunistas,
Nada disse então, por não ser comunista,
Em seguida, castigaram os sindicalistas
Decidi não falar, porque não sou sindicalista.
Mais tarde, foi a vez dos católicos,
Também me calei, por ser protestante.
Então, um dia, vieram buscar-me.
Mas, por essa altura, já não restava nenhuma voz,
Que, em meu nome, se fizesse ouvir.
[Poema de Martin Niemoller]
Este projeto começou na Escola Básica Frei Estêvão Martins, em Alcobaça e destina-se a todos os que veem o mundo através da Poesia. Hoje tem o tamanho do Agrupamento de Cister. Aqui todos os membros da comunidade escolar podem participar, escrevendo (com o seu nome ou usando um pseudónimo), lendo, enviando os poemas preferidos, participando nas atividades... Porque o mundo é mais bonito quando dito com palavras escolhidas!
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Estrofes Vicentinas
“ Auto da Barca do Inferno”
Obra escrita por Gil Vicente
É uma crítica à nossa sociedade
Que melhor retrata a nossa gente!
Sátiras e mensagens pensou
E na sua famosa obra as projectou,
Personagens-tipo e cómicas arranjou
E uma peça histórica encenou.
Todas aquelas personagens
Ao cais foram parar
Para que o Anjo e o Diabo
As pudessem julgar…
Eram muitas
Como a Alcoviteira e as suas enteadas
E poucas foram as
Que não foram condenadas.
Esta crítica social
só podia ser escrita por alguém especial
Esse alguém é Gil Vicente
Uma pessoa muito inteligente.
A peça que fomos ver
Foi de grande diversão
Foi a melhor visita de estudo
Na minha opinião…
Texto produzido a partir de quadras de alunos do 9ºA e 9ºD a propósito da representação a que assistiram no dia 13 de Janeiro.
Obra escrita por Gil Vicente
É uma crítica à nossa sociedade
Que melhor retrata a nossa gente!
Sátiras e mensagens pensou
E na sua famosa obra as projectou,
Personagens-tipo e cómicas arranjou
E uma peça histórica encenou.
Todas aquelas personagens
Ao cais foram parar
Para que o Anjo e o Diabo
As pudessem julgar…
Eram muitas
Como a Alcoviteira e as suas enteadas
E poucas foram as
Que não foram condenadas.
Esta crítica social
só podia ser escrita por alguém especial
Esse alguém é Gil Vicente
Uma pessoa muito inteligente.
A peça que fomos ver
Foi de grande diversão
Foi a melhor visita de estudo
Na minha opinião…
Texto produzido a partir de quadras de alunos do 9ºA e 9ºD a propósito da representação a que assistiram no dia 13 de Janeiro.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Outros declamadores
Diseur: Mário Viegas
Rifão Quotidiano
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Mário Henriques Leiria
Diseur: José Luis Peixoto
Fotografia de Madrid
Madrid regressará sempre. São precisos anos
para aprender aquilo que apenas acontece com
a distância de anos. É por isso que posso afirmar
que Madrid regressará sempre. Não sei que tipo
de entendimento encontrámos. Eu e Madrid não
nos conhecemos bem. Sabemos o essencial e
inventamos tudo o resto. Tanto a minha vida,
como a vida de Madrid, já tiveram muitas formas.
No entanto, quando nos encontramos, somos
sempre o mesmo nome. Avaliamo-nos por
cicatrizes e pequenas marcas de idade.
Não estabelecemos metas, estamos cansados.
Eu e Madrid só queremos uma cama, mas,
se não houver, contentamo-nos com o chão e,
se não houver, contentamo-nos com um abraço.
José Luis Peixoto
sábado, 22 de janeiro de 2011
O 'diseur'
Ainda no 'rescaldo' da visita oa Museu do Teatro e da representação do Auto da Barca do Inferno, queríamos hoje falar-vos de uma figura do teatro que não foi referida nessa visita, mas que tem lugar de destaque na História do Teatro em Portugal: João Villaret.
Passaram ontem 50 anos sobre a sua morte. Com uma carreira multifacetada no espectáculo português, foi um dos responsáveis por levar a Poesia ao grande público, através da rádio e da televisão.
Declamar é uma das muitas artes de palco. E Villaret fazia-o como ninguém!
Numa tradição cultural que recebeu muita influência de França, o actor-declamador era frequentemente conhecido por 'diseur'.
Foi assim que aprendemos a gostar de muitas das palavras da Poesia Portuguesa: na voz e na interpretação do 'diseur' João Villaret, que aqui vos apresentamos num dos seus temas mais famosos, com um vídeo em que podem conhecer algumas das imagens que nos legou, para a História do Teatro e da Poesia em Portugal.
FADO FALADO
Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando à traição, ciume e morte
E um coração a bater forte
Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão
Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar
Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, levião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele
E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado.
Composição: Aníbal Nazaré e Nelson de Barros
Passaram ontem 50 anos sobre a sua morte. Com uma carreira multifacetada no espectáculo português, foi um dos responsáveis por levar a Poesia ao grande público, através da rádio e da televisão.
Declamar é uma das muitas artes de palco. E Villaret fazia-o como ninguém!
Numa tradição cultural que recebeu muita influência de França, o actor-declamador era frequentemente conhecido por 'diseur'.
Foi assim que aprendemos a gostar de muitas das palavras da Poesia Portuguesa: na voz e na interpretação do 'diseur' João Villaret, que aqui vos apresentamos num dos seus temas mais famosos, com um vídeo em que podem conhecer algumas das imagens que nos legou, para a História do Teatro e da Poesia em Portugal.
FADO FALADO
Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando à traição, ciume e morte
E um coração a bater forte
Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão
Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar
Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, levião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele
E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado.
Composição: Aníbal Nazaré e Nelson de Barros
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Vida
Os ossos partem-se,
Os orgãos rebentam,
A carne rasga-se...
Podemos cozer a carne,
reparar o dano,
diminuir a dor...
Mas quando a vida cede,
quando nós cedemos...
não há ciência,
não há regras impostas;
Temos de seguir o nosso caminho...
E para mim,
não há nada melhor
e não há nada pior.
Continuamos a vida sem nos cortarmos,
sem nos magoarmos.
Vida,
morta ou viva continuarei.
Mancha
Os orgãos rebentam,
A carne rasga-se...
Podemos cozer a carne,
reparar o dano,
diminuir a dor...
Mas quando a vida cede,
quando nós cedemos...
não há ciência,
não há regras impostas;
Temos de seguir o nosso caminho...
E para mim,
não há nada melhor
e não há nada pior.
Continuamos a vida sem nos cortarmos,
sem nos magoarmos.
Vida,
morta ou viva continuarei.
Mancha
Auto da Barca do Inferno - Companhia "O Sonho"

Fid.
Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
Dia.
Quem reze sempre por ti?!...
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
E tu viveste a teu prazer, cuidando cá guarecer[15]
por que rezam lá por ti?!...
Embarca! Hou! Embarcai!
que haveis de ir à derradeira!
Mandai meter a cadeira,
que assi passou vosso pai.
Fid.
Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!
Dia.
Vai ou vem! Embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.
Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.
Fid.
Não há aqui outro navio?
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