sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

                  Ano Novo

Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas buzinas
Todos os tambores
Todos os reco-recos tocarem:
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada – outra vez criança
E em torno dela indagará o povo:
- Como é o teu nome, meninazinha dos olhos verdes?
E ela lhes dirá
( É preciso dizer-lhes tudo de novo )
Ela lhes dirá bem alto, para que não se esqueçam:
- O meu nome é ES – PE – RAN – ÇA …

Mário Quintana

Desejo
Victor Hugo
 
Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Poema de Natal - Fernando Pessoa


Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !

Eu queria ser Pai Natal - Luísa Ducla Soares


Eu queria ser Pai Natal
E ter carro com renas
Para pousar nos telhados
Mesmo ao pé das antenas.
Descia com o meu saco
Ao longo da chaminé,
Carregado de brinquedos
E roupas, pé ante pé.
Em cada casa trocava
Um sonho por um presente
Que profissão mais bonita
Fazer a gente contente!

Natal


Natal, é para ser todos os dias.
Nos nossos corações, nas nossas mentes.
O Natal não está nos presentes, está na ajuda ao próximo e na compreensão.
É darmos as mãos e sentirmo-nos irmãos.




UM “TOQUE” NATALÍCIO


Prega-se, implora-se
Por um pouco mais de humanidade
E aproveita-se esta quadra
Em atitude encenada
Para banir a desigualdade

E os crentes e descrentes
Revêm-se nestes desejos
Reprovam tanta vaidade
Com frases de fatalidade
Muitas, ditas com gracejos

Amor, histeria
Muitos donativos, hipocrisia
Misturam-se numa receita
Que nem de todo é perfeita!

Iluminam-se as cidades
Agendam-se celebrações
Fazem-se apelos à união
Unânimes numa missão
De travar as divisões

E tocam em tantos corações...

Mas porquê só nesta quadra
Que deveria ser abençoada
Se criam tantas ilusões,
Falsas expetativas nas multidões?

Sejamos honestos!
Um pouquinho mais de bondade.
O ano tem tantos dias
Para reviver o “Messias”
Prestar solidariedade!

Deixemo-nos de fantasias
E de procurar protagonismo
E discretamente ajudarmos
Sem nada em troca cobrarmos
Pormos de parte o egoísmo

E este espírito de Natal
Dia a dia o construirmos
No trabalho, em cada momento
Num total envolvimento
Sem nunca o próximo ferirmos

Um Feliz e Santo Natal.

      FM de Quod








terça-feira, 6 de novembro de 2012

GRATIDÃO


 
 

Obrigada

Pelo ar que se respira

Pelas ínfimas coisas que nos passam despercebidas

Pelas palavras sentidas,

por algumas lágrimas vertidas

 

Obrigada

Pelas manhãs mais agitadas

Quando as crianças zangadas não nos conseguem perturbar

E enfrentamos mais um dia,

com uma imensa alegria

 e vontade de ajudar

 

Obrigada

Pelo trabalho, tantas vezes árduo,

Pelas censuras, desilusões, pelas falsas amizades e frustrações

Mas por saber que no final

fortaleci, sou mais leal

 

Obrigada

Pela brisa fresca das manhãs

Pelas gotinhas de orvalho, suspensas naquele galho

Pelo perfume das flores

Pelo arco-íris, pelas cores

 

Obrigada

Pela difícil caminhada do saber e pela dádiva do conhecimento

Pelas frases já descritas

Pelas palavras não ditas

Pelo dom do pensamento

 

Obrigada

Pelo pão de cada dia, pelos risos, pela alegria

Pelos percalços da vida que nos dão grandes lições,

Pelas fraquezas, inseguranças,

pelas pequenas lembranças

que inundam nossos corações

 

Obrigada

Pelo rosto enrugado dum velhinho

Pelo tempo já passado

Contigo sempre ao meu lado

Vigiando de mansinho

 

Pela paz, pela fraternidade

Por um soluço contido

Pelo abraço mais sentido

Duma sincera amizade

 

Obrigada

Pelo amor

Cantado por tantos poetas

Vivido por mentes abertas que nos fazem levitar,

Que une o ser mais imperfeito

anulando qualquer defeito

no enlace matrimonial

 

Obrigada

Por esta caminhada ao teu lado, de mão dada,

Obrigada,pela VIDA !                                                       
 
 
Fany 2012
 
 
 

 

PEQUENAS GRANDES COISAS


A felicidade é um acumular de pequenas grandes coisas

do dia a dia

Onde adicionamos doses de amor,

Pitadinhas de alegria

 

E esses ingredientes

Fortes e consistentes,

Pintados de aromas e cores,

Guarnecidos de doces sabores

São suave melodia

 

Como uma caminhada na praia

Ou o cheirinho da maresia.

Uns salpicos de água na saia,

Loucuras e fantasia…

 

Como um entardecer à lareira

uma conversa animada

Ateiam a brincadeira

Lançam achas à fogueira

Prenúncios da madrugada

 

Carícias suaves na face

Pela brisa leve do vento

E mesmo que a chuva a molhasse

E o relógio do tempo parasse

Prolongaria esse momento

 

Um amanhecer lado a lado

Momentos de euforia

Um cabelo desalinhado

O calor de um doce afago

Corações em sintonia

 

Um olhar cúmplice e furtivo,

Um pensamento intuitivo

Palavras que não direi,

Respostas que não terei

De um amor correspondido

 

Como o perfume delicado de uma flor

Um jardim florido de quimeras

O riso franco de uma criança

Memórias de uma meiga infância

O recordar das primaveras

 

Doce aconchego de mãe

Saudades de quem a não tem

Momentos de generosidade

Laços fortes de uma amizade

São eternos e fazem bem

 

E por mais que tu procures

Nos desencontros do passado

As pequenas grandes coisas

Caminham bem ao teu lado

 

Ser feliz não é pecado !
 

   Fany – agosto 2012

 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

POEMAS DE OUTONO


CANÇÃO DE OUTONO

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

           Cecília Meireles

Em uma Tarde de OutonoOutono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto. 
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas 
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto... 

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas, 
Visitaste este mar inabitado e morto, 
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas, 
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto? 

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos 
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos... 
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol! 

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste, 
E contemplo o lugar por onde te sumiste, 
Banhado no clarão nascente do arrebol... 

Olavo Bilac, in "Poesias"


sábado, 20 de outubro de 2012

Regresso às aulas

Benvindos a todos os nossos colaboradores, leitores e seguidores, que seja mais um ano cheio de poesia. Para recomeçar, escolhemos um poema de Guerra Junqueiro, que expressa a sua visão sobre a escola portuguesa. Até breve.
 
A Escola Portuguesa

Eis as crianças vermelhas
Na sua hedionda prisão:
Doirado enxame de abelhas!
O mestre-escola é o zangão.

Em duros bancos de pinho
Senta-se a turba sonora
Dos corpos feitos de arminho,
Das almas feitas d'aurora.

Soletram versos e prosas
Horríveis; contudo, ao lê-las
Daquelas bocas de rosas
Saem murmúrios de estrela.

Contemplam de quando em quando,
E com inveja, Senhor!
As andorinhas passando
Do azul no livre esplendor.

Oh, que existência doirada
Lá cima, no azul, na glória,
Sem cartilhas, sem tabuada,
Sem mestre e sem palmatória!

E como os dias são longos
Nestas prisões sepulcrais!
Abrem a boca os ditongos,
E as cifras tristes dão ais!

Desgraçadas toutinegras,
Que insuportáveis martírios!
João Félix co'as unhas negras,
Mostrando as vogais aos lírios!

Como querem que despontem
Os frutos na escola aldeã,
Se o nome do mestre é — Ontem
E o do discíp'lo — Amanhã!

Como é que há-de na campina
Surgir o trigal maduro,
Se é o Passado quem ensina
O b a ba ao Futuro!

Entregar a um tarimbeiro
Um coração infantil!
Fazer o calvo Janeiro
Preceptor do loiro Abril!

Barbaridade irrisória,
Estúpido despotismo!
Meter uma palmatória
Nas mãos dum anacronismo!

A palmatória, o açoite,
A estupidez decretada!
A lei incumbindo a Noite
Da educação da Alvoradal

Gravai na vossa lembrança
E meditai com horror,
Que o homem sai da criança
Como o fruto sai da flor.

Da pequenina semente,
Que a escola régia destrói,
Pode fazer-se igualmente
Ou o assassino ou o herói.

Desta escola a uma prisão
Vai um caminho agoireiro:
A escola produz o grão
De que a enxovia é o celeiro.

Deixai ver o Sol doirado
À infância, eis o que eu vos peço.
Esta escola é um atentado,
Um roubo feito ao progresso.

Vamos, arrancai a infância
Da lama deste paul;
Rasgai no muro Ignorância
Trezentas portas de azul!

O professor asinino,
Segundo entre nós ele é,
Dum anjo extrai um cretino,
Dum cretino um chimpanzé.

Empunhando as rijas férulas
Vós esmagais e partis
As crianças — essas pérolas
Na escola — esse almofariz.

Isto escolas!... que índecência
Escolas, esta farsada!
São açougues de inocência,
São talhos d'anjos, mais nada.

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'