terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mais um bonito poema, muito convidativo à reflexão.
Um Pouco Mais de Nós
Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serás ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horário,
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.

E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

José Jorge Letria


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Outono

No outono, o frio começa a chegar
As folhas coloridas caem lentamente
Tecendo tapetes que cobrem o chão
Entregando as árvores à solidão.

As manhãs começam a arrefecer,
lareiras acesas, chás para a alma aquecer,
Castanhas assadas,
Folhas douradas.

O espírito de alegria tenta alegrar o coração
Agasalhado pelo casacão.
Mas, o vento corre pelos ramos das árvores nuas,
E,que saudade do ar quente do verão!

Poema coletivo elaborado pela turma de 9ºB da FEM

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Decidimos dedicar este mês a mais um ilustre poeta  português, José Jorge Letria. Jornalista, poeta, dramaturgo, ficcionista e autor de uma vasta obra para crianças e jovens, José Jorge Letria nasceu em Cascais, em 1951.
Estudou Direito, História na Universidade de Lisboa, sendo pós-graduado em Jornalismo Internacional  e  Mestre em “Estudos da Paz e da Guerra nas Novas Relações Internacionais” pela Universidade Autónoma de Lisboa.
Tem livros traduzidos em várias línguas ( castelhano, francês, inglês, italiano, coreano, japonês, russo, búlgaro, romeno, húngaro e checo).
A sua obra literária foi distinguida, até à data, com dois Grandes Prémios.
Aqui fica um primeiro poema para apreciar...

Ode ao Gato


Tu e eu temos de permeio 
a rebeldia que desassossega, 
a matéria compulsiva dos sentidos. 
Que ninguém nos dome, 
que ninguém tente 
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza, 
pois nós temos fôlegos largos 
de vento e de névoa 
para de novo nos erguermos 
e, sobre o desconsolo dos escombros, 
formarmos o salto 
que leva à glória ou à morte, 
conforme a harmonia dos astros 
e a regra elementar do destino. 

José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos" 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Poema para Galileu


Galileu foi julgado pela Inquisição, devido às novas ideias que defendia.
É a esse facto que o poema de António Gedeão alude. Poeta e cientista, era muito sensível a este tema. Dessa sensibilidade nasceu este magnífico poema.


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O dia 16 de outubro marca o dia da fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, em 1945.
Uma vez que ontem se comemorou mais um dia da alimentação e sendo a água um elemento fundamental para a nossa sobrevivência aqui fica um poema de António Gedeão.

Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

António Gedeão

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

António Gedeão - Poeta do mês de outubro

Como cientista e humanista António Gedeão criou poemas para nos falar da falta de sentido dos preconceitos.
Na sua linguagem de cientista prova-nos "no laboratório" que o racismo não tem qualquer sentido.
Do belo poema outros fizeram canções.

Aqui ficam as palavras escritas
(recolhidas em https://poemasdomundo.wordpress.com/2006/11/04/lagrima-de-preta/)
e cantadas por Adriano Correia de Oliveira,
num vídeo recolhido no youtube.

Aqui fica, sobretudo, um tema para refletir.

Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterlizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Madei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
António Gedeão (1906-1997)


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Notícias Nossas

Temos hoje o grato prazer de anunciar obra publicada de uma poetisa que se estreou por aqui.

A Inês foi aluna do nosso agrupamento e colaboradora do nosso blogue. Aqui publicou, entre 2009 e 2013,  diversos poemas que podes consultar no arquivo do blogue.

Hoje tem a alegria de ter publicado o seu primeiro livro de poesia, que aqui anunciamos com muita satisfação e carinho. Parabéns à Inês, parabéns à editora Poesia Fã Clube!

Aqui fica um poema extraído da obra:

Berço de Ilusão

Mundo se sorrisos
mundo de poesia
mundo de feitiços
mundo de hipocrisia.

Mundo que tenta transparecer
quem não é oponente
aos tempos de dor que se estão a estender
a este promissor continente.

Mundo de apostas perdidas
e de costas voltadas
onde guerras causaram feridas
que jamais podem ser saradas.

Mundo de exclusão
é assim que nós temos de viver
fomos crescendo num berço de ilusão
enquanto os nosso sonhos acabam por desvanecer.


Muito nos honra continuar a merecer a confiança desta novel poetisa. Obrigada Inês!